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<title>Folha de S.Paulo - Colunas - Denise Fraga</title>
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<description>Primeiro jornal em tempo real em língua portuguesa</description>
<language>pt-br</language>
<copyright>Copyright Folha de S.Paulo. Todos os direitos reservados.</copyright>
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<webMaster>webmaster@grupofolha.com.br (Webmaster Folha de S.Paulo)</webMaster>

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<title>Folha de S.Paulo - Colunas - Denise Fraga</title>
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<title>Uma rasteira no cotidiano</title>
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Dia desses, precisei pingar um remédio no nariz e deitei na cama pra fazer isso. O remédio desceu pelas minhas narinas, mas eu não conseguia mais me levantar.
Meu pé foi capturado pela delícia de um raio de sol que costuma atravessar o meu quarto àquela hora do dia.
Eu fiquei ali parada, deitada sobre a colcha, esquentando os pés enquanto olhava uns reflexos dançando no teto. Minha cabeça começou a caminhar.
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<pubDate>14 May 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Megafones</title>
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&amp;quot;Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.&amp;quot; Acho que muitas namoradas não conseguiram terminar seus falidos namoros adolescentes por culpa da famosa e melosa frase de Saint-Exupéry. Se o namorado fosse loiro como o Pequeno Príncipe, então, era quase impossível. Lá vinham os campos de trigo se misturando aos cabelos do rapaz e o rompimento ficava de novo para o sábado seguinte.
Fui uma delas. E, quando finalmente consegui dar adeus ao meu namoradinho cansado, ele deixou a frase grudada por fora no vidro da janela do meu quarto para que eu nunca mais pudesse olhar o horizonte sem a culpa necessária pelo que eu estaria deixando para trás.
Alguns anos de análise cuidaram disso. Esqueci a frase, perdoei Saint-Exupéry e devo ter acumulado, como qualquer um de nós, uma lista de pessoas cativadas abandonadas por minha responsabilidade.
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<pubDate>30 Apr 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>A vida jorra</title>
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Uma das imagens mais cálidas de minha infância é o sussurro de minha mãe no cinema lendo as legendas para a gente. Ela se recostava na cadeira, juntávamos nossas cabeças e víamos filmes para maiores sob a sua &amp;quot;tradução simultânea&amp;quot;.
Inacreditavelmente, Terence Hill e Bud Spencer me pareciam perfeitos interpretados por ela.
Anos mais tarde, levei minha afilhada ao cinema e me lembrei de minha mãe.
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<pubDate>16 Apr 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Como nossos pais</title>
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Comecei a cantarolar baixinho e o taxista perguntou se eu queria que ele aumentasse o volume. Tocava no rádio nada mais nada menos que &amp;quot;Father and Son&amp;quot;, de Cat Stevens, hino de minha adolescência.
Eu e minha amiga Vânia ficávamos deitadas no tapete da sala lendo a letra no encarte do LP, acompanhando Stevens com nosso sofrível inglês e total sofreguidão.
O rapaz aumentou o volume, também adorava a música. &amp;quot;Mas não é ele cantando, é?&amp;quot; --perguntei. Meu amigo taxista não sabia dizer, talvez fosse jovem demais. Havia muito tempo que eu não ouvia a canção. Fiquei esperando a parte de meu maior prazer, quando, quase em esgares, Stevens cantava &amp;quot;How can I try to explain? When I do, he turns away again. And it&apos;s always been the same, same old story...&amp;quot;. Não vinha. Não veio.
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<pubDate>02 Apr 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Experiência coletiva</title>
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Aconteceu algumas vezes. Estou em cena, com o público na plateia, quando sou invadida pela sensação. &amp;quot;Que coisa engraçada a gente aqui, falando deste jeito, com este figurino... Eles ali, quietos. Que milagre ninguém romper com isso!&amp;quot; É como se, por instantes, eu tomasse consciência plena do aqui e agora do Teatro. É um pensamento perigoso, preciso me esforçar para voltar à concentração.
Mas foram nesses momentos que compreendi quase concretamente a coisa única que é o evento teatral.
Ouvi uma vez de um estudioso de nossa arte que o público continua indo ao teatro na grande esperança de ver um ator morrer em cena. Adoro essa ideia. Quer dizer, não creio que o público torça exatamente por isso, e Deus me livre algum dia eu mesma contribuir para a literalidade de tal máxima, mas amo pensar que o Teatro é algo que corre vivo num fio de navalha.
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<pubDate>19 Mar 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Primeira centésima vez</title>
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Qual foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez? No escuro do cinema, um publicitário qualquer querendo me vender alguma coisa me flechou com a frase de efeito.
O filme começou e eu não conseguia me concentrar pensando em qual tinha sido a minha última primeira vez.
Senti certo alívio enumerando coisas banais como o próprio filme, alguém que tinha conhecido, um restaurante novo, um doce, mas minha mente não sossegava querendo ter pulado de paraquedas na semana anterior. Bom publicitário. Mais ou menos: não me lembro do produto.
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<pubDate>05 Mar 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Amor, ordem e progresso</title>
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Tenho uma vontade danada de pôr a mão no peito quando eu canto o hino nacional. Não ponho. Fico constrangida. Nosso material cívico foi um tanto manchado pelo ufanismo do governo militar, e demonstrações de amor à pátria usando o hino e a bandeira ainda têm certo peso para mim. Sou legítima filha do golpe.
Nasci em 1964 e, apesar da letra difícil, aprendi nosso hino inteirinho e em detalhes. Na minha escola, ele era cantado todos os dias. O castigo que minha professora dava para a bagunça da turma era o pedido de cópias da letra em folhas pautadas de papel almaço. Quem errasse uma vírgula tinha de refazer.
Foi por conta disso que Tia Eda e minha mãe, também professora, tiveram longa querela, me fazendo carregar livros pra cá e pra lá, a respeito da existência ou não de crase no &amp;quot;as margens plácidas&amp;quot;. Negativo. As margens do Ipiranga saíram de sua placidez e ouviram mesmo o brado retumbante.
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<pubDate>19 Feb 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Mergulhar é preciso</title>
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Uma coisa pra se fazer na vida antes de morrer: conhecer o fundo do mar. Estive uma vez em Fernando de Noronha e foi uma experiência transformadora. Entendi completamente o sentido da palavra mergulhar.
Não sei se pelo estado de alerta que você fica à espera das surpresas submarinas, pela incrível sensação de flutuar no abismo ou simplesmente pelo único som que lhe resta ser o esquecido compasso da sua respiração, você acaba entrando num estado de concentração único e inesquecível. Um verdadeiro mergulho.
Pouco tempo depois dessa experiência, li no jornal sobre o casal que sobreviveu ao tsunami por estar justamente mergulhando. Pensar que tudo aquilo lhes passou por cima e eles continuaram a ouvir o som de suas respirações. Se estivessem navegando, teriam sido trucidados. Estar mergulhando, o que parecia mais perigoso, os salvou.
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<pubDate>05 Feb 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Vivam os grafiteiros!</title>
<link>http://redir.folha.com.br/redir/online/colunas/denisefraga/rss091/*http://www1.folha.uol.com.br/colunas/denisefraga/1218269-vivam-os-grafiteiros.shtml</link>
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Adoro carros coloridos. Meu primeiro carro foi um Fusca vermelho. Tive também uma Brasília marrom, um Chevette azul, uma Parati e outros tantos carros verdes. Acho realmente um desperdício passarmos horas no trânsito olhando para uma multidão de carros cinzas e iguais.
Algumas vezes na minha vida, quando estive em dúvida, deixei o veredicto por conta da eventual passagem de um carro vermelho pelo cruzamento. Faz tempo que não uso a tática, os carros vermelhos estão cada vez mais raros.
Acho a Lei Cidade Limpa um bom projeto, mas parece que acentuou ainda mais a falta de cor do nosso trânsito sobre nossas fachadas despreparadas.
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<pubDate>22 Jan 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Medo e vergonha</title>
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O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, nos põe em xeque, paralisa alguns e atiça a criatividade de outros. Uma pessoa em estado de pavor é dona de uma energia extra capaz de feitos incríveis.
Um amigo nosso, quando era adolescente, aproveitou a viagem dos pais da namorada para ficar na casa dela. Os pais voltaram mais cedo e, pego em flagrante, nosso Romeu teve a brilhante ideia de pular, pelado, do segundo andar. Está vivo. Tem hoje essa incrível história pra contar, mas deve se lembrar muito bem da vergonha.
Me lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, mas na qual também vi meu medo me deixar em maus lençóis.
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<pubDate>08 Jan 2013 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>A mesa amarela</title>
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A casa da minha infância tinha uma mesa amarela. Era a casa de minha bisavó, uma casa antiga com abacateiro no quintal e uma penca de tios, primos e agregados.
A importância dessa casa na minha vida é fundamental. A importância dessa mesa na vida dessa casa também. Era uma mesa comum, forrada de fórmica amarela e que aumentava de tamanho nos almoços de domingo, quando eram usadas as duas tábuas extras camufladas debaixo do tampo. Fosse domingo, Páscoa, Natal ou qualquer ocasião que justificasse comemoração, lá estava ela, firme e forte, centopeia de nossas muitas pernas.
No dia a dia, a mesa servia de bancada às costuras de minha bisa, que eram devidamente retiradas para as refeições, incluindo o lanche da tarde. O curioso é que, apesar do tamanho da casa, de haver uma sala de estar, ninguém saía de lá. Chegava-se e já se ia puxando uma cadeira da mesa amarela para se sentar, com refeição ou não. A mesa tinha poder. Depois dos almoços de domingo, víamos a noite chegar ainda sentados à sua volta.
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<pubDate>25 Dec 2012 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Dezembrices</title>
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Vinha distraída, voltando do mercado, quando pisei num treco. O porteiro do prédio me fuzilou com o olhar.
Compreendi imediatamente o seu ódio. Eu tinha trucidado duas lampadazinhas do cordão de luzes natalinas que ele estava pendurando na planta --esse insuportável trabalho extra que inventaram para os porteiros desde que a China passou a iluminar nossos dezembros.
Sei bem o que é quebrar uma lampadazinha do meio dessas temerárias correntes de luz. Desde que elas invadiram nosso mercado, não há um ano que eu não passe pelo desespero de enrolá-las.
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<pubDate>11 Dec 2012 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Clique fatal</title>
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Quando nasceram meus filhos, eu costumava dizer que todas as mães deveriam sair da maternidade com seus bebês nos braços e um superpoder de brinde: a câmera-piscadela.
Seria um aparato, um chip qualquer acoplado ao olho, que, numa piscadela, eternizaria em fotos o milagre vertiginoso que é ver uma criança evoluir ao seu lado.
Compramos nossa primeira câmera digital para garantir liberdade de cliques à tentativa de congelar a vida que corria em alta velocidade.
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<pubDate>27 Nov 2012 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Último suspiro</title>
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Há dois anos, perdi minha avó. Foi uma mulher calada e trabalhadeira. Servia a mesa e ficava em pé, ao lado, sem sentar. Trabalhou a vida inteira atrás de um balcão, junto do meu avô. &amp;quot;Não senta que o freguês não entra&amp;quot; -- ele dizia. Acostumou-se a ficar de pé. No fim da vida, foi sentando aqui, sentando ali, cavando seu lugar no sofá, silenciando e murchando como uma plantinha.
A morte gradativa de minha avó me fez pensar muito na vida e em como deveríamos todos poder ir morrendo assim, lentamente, para que pudéssemos ter mais chances de aprender sobre aquilo que insistimos em não aceitar.
Percebi um sinal, corri para o Rio e ainda pude ver seu último suspiro. Ver alguém morrer é coisa que não se esquece jamais.
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<pubDate>13 Nov 2012 03:30:00 -0300</pubDate>
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<title>Vale trave</title>
<link>http://redir.folha.com.br/redir/online/colunas/denisefraga/rss091/*http://www1.folha.uol.com.br/colunas/denisefraga/1177095-vale-trave.shtml</link>
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Sou flamenguista de nascença, mas palmeirense pelo coração. Gosto de futebol. Meu marido é palmeirense roxo e meus filhos ainda ostentam com orgulho a camisa do Palestra. Não tivemos muitas alegrias na última década, mas, neste ano, nosso time nos deu a Copa do Brasil e garantiu nossa vaga na Libertadores.
Fazia tempo que não nos inflamávamos tanto na arquibancada nem víamos nosso time jogar bonito assim. Estava um ano quente.
Mas, por incrível que pareça, corremos o perigo de passar o Natal amargando 2013 na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. O time até brilhou, mas a bola simplesmente não entrou.
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<pubDate>30 Oct 2012 03:30:00 -0300</pubDate>
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